{"id":2002,"date":"2026-06-26T17:25:22","date_gmt":"2026-06-27T00:25:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/?p=2002"},"modified":"2026-07-04T15:02:15","modified_gmt":"2026-07-04T22:02:15","slug":"frantz-fanon-o-pensador-que-o-brasil-precisa-redescobrir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/en\/frantz-fanon-o-pensador-que-o-brasil-precisa-redescobrir\/","title":{"rendered":"Frantz Fanon: o pensador que o Brasil precisa redescobrir"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">Frantz Fanon morreu aos 36 anos, em dezembro de 1961, de leucemia, em Washington D.C. Ele era negro, antilhano, psiquiatra, soldado e revolucion\u00e1rio. Em menos de uma d\u00e9cada de produ\u00e7\u00e3o intelectual intensa, escreveu quatro livros que mudaram a forma como o mundo pensa sobre ra\u00e7a, coloniza\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia. Ent\u00e3o foi esquecido \u2014 ao menos no mainstream acad\u00eamico brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso \u00e9 um problema. Porque o Brasil que Fanon descreveu \u2014 dividido em compartimentos, estruturado pelo medo, organizado para que alguns corpos produzam e outros acumulem \u2014 ainda existe. E nenhuma an\u00e1lise pol\u00edtica s\u00e9ria do Brasil contempor\u00e2neo deveria ignorar as ferramentas que ele deixou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas pr\u00f3ximas semanas, vou usar o pensamento de Fanon para analisar casos concretos: a escala 6&#215;1, as cotas raciais, o feminic\u00eddio de mulheres negras, a misoginia estrutural. Mas antes, precisamos saber quem ele foi.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Martinica, 1925: nascer colonizado<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Frantz Omar Fanon nasceu em 20 de julho de 1925, em Fort-de-France, capital da Martinica \u2014 uma ilha do Caribe que \u00e9, at\u00e9 hoje, territ\u00f3rio franc\u00eas. Ele cresceu numa fam\u00edlia de classe m\u00e9dia negra, num lugar onde ser civilizado significava falar franc\u00eas sem sotaque crioulo, admirar Voltaire e esquecer que voc\u00ea era negro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fanon percebeu cedo a contradi\u00e7\u00e3o. A Martinica era formalmente francesa, mas os martinicanos eram tratados como subalternos. A l\u00edngua, a cultura, a identidade europeia eram uma m\u00e1scara \u2014 e usar essa m\u00e1scara era o pre\u00e7o de entrada para ser reconhecido como humano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa tens\u00e3o entre a m\u00e1scara e a pele \u00e9 o n\u00facleo de toda a sua obra.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A guerra e o choque<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com 17 anos, Fanon abandonou a Martinica para lutar pela Fran\u00e7a Livre durante a Segunda Guerra Mundial. A experi\u00eancia foi traumatizante \u2014 n\u00e3o pelo combate, mas pela descoberta de que o ex\u00e9rcito franc\u00eas, que dizia lutar pela liberdade, era profundamente racista. Os soldados negros das col\u00f4nias eram tratados como inferiores pelos pr\u00f3prios camaradas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Voc\u00ea defende a civiliza\u00e7\u00e3o europeia&#8221;, disse um oficial a ele. Fanon respondeu com uma pergunta que nunca parou de fazer: <em>de qual civiliza\u00e7\u00e3o, exatamente, voc\u00ea est\u00e1 falando?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois da guerra, estudou medicina e psiquiatria em Lyon. Em 1952, com 27 anos, publicou <em>Pele Negra, M\u00e1scaras Brancas<\/em> \u2014 uma an\u00e1lise psicanal\u00edtica e filos\u00f3fica do que acontece com a psique de uma pessoa quando cresce sendo ensinada a envergonhar-se de si mesma.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A tese central: o racismo n\u00e3o est\u00e1 na cabe\u00e7a \u2014 est\u00e1 na estrutura<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fanon n\u00e3o era um psic\u00f3logo do trauma individual. Era um analista pol\u00edtico. O que ele mostrou em <em>Pele Negra, M\u00e1scaras Brancas<\/em> \u00e9 que o racismo n\u00e3o \u00e9 apenas um preconceito que algumas pessoas t\u00eam \u2014 \u00e9 uma estrutura que organiza quem pode existir plenamente e quem n\u00e3o pode.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Falar \u00e9 existir absolutamente para o outro&#8221;, escreveu ele. O colonizado aprende a l\u00edngua do colonizador porque sem ela n\u00e3o existe. Aprende a cultura do colonizador porque sem ela \u00e9 &#8220;selvagem&#8221;. Aprende a admirar o colonizador porque \u00e9 com esse espelho que aprende a se enxergar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o \u00e9 um problema individual. \u00c9 pol\u00edtico. E a solu\u00e7\u00e3o, para Fanon, nunca poderia ser apenas psicol\u00f3gica \u2014 precisava ser coletiva e estrutural.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Arg\u00e9lia e a radicaliza\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1953, Fanon foi trabalhar como psiquiatra no Hospital de Blida, na Arg\u00e9lia, ent\u00e3o col\u00f4nia francesa em luta pela independ\u00eancia. O que viu mudou tudo: as torturas praticadas pelo ex\u00e9rcito franc\u00eas produziam traumas nos torturados \u2014 mas tamb\u00e9m nos torturadores. O colonialismo adoecia os dois lados, mas de formas completamente diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1956, rompeu com a administra\u00e7\u00e3o colonial e aderiu \u00e0 Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional argelina (FLN). A partir da\u00ed, escreveu n\u00e3o apenas como intelectual, mas como militante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Os Condenados da Terra<\/em>, publicado em 1961 com pref\u00e1cio de Jean-Paul Sartre, \u00e9 o resultado disso: uma an\u00e1lise da viol\u00eancia colonial, da psicologia do colonizado e dos caminhos da descoloniza\u00e7\u00e3o. O livro foi proibido na Fran\u00e7a. Lido clandestinamente em todo o mundo colonizado. E influenciou desde o Partido dos Panteras Negras nos EUA at\u00e9 movimentos de liberta\u00e7\u00e3o na \u00c1frica, na \u00c1sia e na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fanon morreu antes de ver a independ\u00eancia da Arg\u00e9lia. Tinha 36 anos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que o Brasil precisa de Fanon agora<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil n\u00e3o foi uma col\u00f4nia no sentido argelino. Mas foi \u2014 e ainda \u00e9 \u2014 um pa\u00eds estruturado pela hierarquia colonial. Temos o maior n\u00famero de negros fora da \u00c1frica. Nosso racismo foi chamado de &#8220;democracia racial&#8221; por d\u00e9cadas para que n\u00e3o precis\u00e1ssemos enxerg\u00e1-lo. E ainda hoje, quando tentamos corrigi-lo com cotas, enfrentamos resist\u00eancia de quem diz que pol\u00edticas raciais &#8220;dividem&#8221; o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fanon responderia: o pa\u00eds j\u00e1 estava dividido. Voc\u00eas s\u00f3 n\u00e3o queriam ver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas pr\u00f3ximas semanas, vou mostrar como o pensamento de Fanon ilumina quatro situa\u00e7\u00f5es concretas da pol\u00edtica brasileira atual: as cotas raciais, a escala 6&#215;1, o feminic\u00eddio de mulheres negras e o debate sobre misoginia. Cada uma delas, vista com os olhos de Fanon, deixa de ser um problema isolado e passa a ser parte de uma estrutura que ele descreveu com precis\u00e3o cir\u00fargica h\u00e1 70 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7a na semana que vem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fanon morreu aos 36 anos, mas sua an\u00e1lise do racismo como estrutura pol\u00edtica segue sendo a mais precisa j\u00e1 escrita. Entenda quem ele foi.<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":2021,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"jnews-multi-image_gallery":[],"jnews_single_post":{"format":"standard"},"jnews_primary_category":[],"jnews_override_bookmark_settings":[],"jnews_social_meta":[],"jnews_override_counter":[],"footnotes":""},"categories":[675],"tags":[678,676,677,679],"class_list":["post-2002","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-comunicacao-esfera-publica","tag-colonialismo","tag-frantz-fanon","tag-pensamento-politico","tag-racismo-estrutural"],"acf":[],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2002","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2002"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2002\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2012,"href":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2002\/revisions\/2012"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2021"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2002"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2002"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2002"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}