{"id":2035,"date":"2026-08-05T11:30:38","date_gmt":"2026-08-05T18:30:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/?p=2035"},"modified":"2026-08-05T17:57:53","modified_gmt":"2026-08-06T00:57:53","slug":"rascunho-automatico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.carlos-souza.com\/en\/rascunho-automatico\/","title":{"rendered":"Quem trabalha na escala 6&#215;1 \u00e9 jovem, negra e mulher"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">Em setembro de 2023, um balconista de farm\u00e1cia do Rio de Janeiro gravou um desabafo no TikTok e chamou a escala 6&#215;1 de &#8220;escravid\u00e3o moderna \u2014 moderna n\u00e3o, ultrapassada&#8221;. Tr\u00eas anos depois, aquele v\u00eddeo virou tr\u00eas milh\u00f5es de assinaturas, um movimento nacional, um mandato de vereador e uma PEC aprovada na C\u00e2mara. Mas quase todo o debate p\u00fablico sobre a jornada tratou de horas e de custos. Quase nenhum tratou de quem, exatamente, cumpre essas horas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este texto parte de uma pergunta simples:&nbsp;<strong>quem trabalha na escala 6&#215;1 no Brasil?<\/strong>&nbsp;A resposta que os dados d\u00e3o \u00e9 bem mais espec\u00edfica \u2014 e mais desconfort\u00e1vel \u2014 do que &#8220;o trabalhador brasileiro&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O contexto: de um desabafo no TikTok \u00e0 PEC parada no Senado<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria \u00e9 r\u00e1pida de contar. O desabafo de Rick Azevedo \u2014 jovem, negro, gay, migrante do interior \u2014 gerou uma peti\u00e7\u00e3o que passou de tr\u00eas milh\u00f5es de assinaturas e fundou o movimento Vida Al\u00e9m do Trabalho (VAT). Azevedo foi eleito vereador no Rio. A deputada Erika Hilton (PSOL) converteu a demanda em Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A proposta original previa 36 horas semanais. O que a C\u00e2mara aprovou, em dois turnos, em maio de 2026, foi a redu\u00e7\u00e3o de 44 para 40 horas, com cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio. O texto seguiu para o Senado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 ali que est\u00e1 desde ent\u00e3o. A PEC n\u00e3o foi direto ao plen\u00e1rio: precisa passar pelas comiss\u00f5es, e acumula mais de dois meses de tramita\u00e7\u00e3o sem avan\u00e7o decisivo, agora com o calend\u00e1rio eleitoral no caminho. Enquanto isso, uma contraproposta do senador Rog\u00e9rio Marinho (PL-RN), a PEC 12\/2026, prop\u00f5e outra coisa: jornada definida por acordo direto entre patr\u00e3o e empregado, contrato individual prevalecendo sobre a negocia\u00e7\u00e3o coletiva, remunera\u00e7\u00e3o por hora sem n\u00famero m\u00ednimo de horas contratadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pesquisadores Jos\u00e9 Dari Krein e Marilane Teixeira, do CESIT\/Unicamp, chamaram essa contraproposta de &#8220;cavalo de Troia da precariza\u00e7\u00e3o&#8221;. Voltaremos a ela.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que os dados dizem: o perfil de quem cumpre a jornada<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O&nbsp;<em>Atlas comentado da escala 6&#215;1 no Brasil<\/em>&nbsp;organiza o que a discuss\u00e3o sobre horas costuma deixar de fora. A escala se concentra em jovens de 18 a 24 anos, majoritariamente negros e perif\u00e9ricos, empregados sobretudo no com\u00e9rcio \u2014 um setor em que mulheres negras s\u00e3o maioria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os n\u00fameros de renda desenham o mesmo contorno:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>73%<\/strong>&nbsp;da popula\u00e7\u00e3o negra ganha at\u00e9 R$ 2.120 por m\u00eas. Entre mulheres negras, o percentual sobe para&nbsp;<strong>80,7%<\/strong>.<\/li>\n\n\n\n<li>Nas dez ocupa\u00e7\u00f5es de&nbsp;<strong>menor<\/strong>&nbsp;remunera\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, pessoas negras s\u00e3o&nbsp;<strong>70%<\/strong>&nbsp;da for\u00e7a de trabalho (DIEESE, 2024).<\/li>\n\n\n\n<li>Nas dez profiss\u00f5es&nbsp;<strong>mais bem pagas<\/strong>, s\u00e3o&nbsp;<strong>27%<\/strong>&nbsp;(DIEESE, 2024).<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E h\u00e1 um dado que raramente entra na conta da jornada:&nbsp;<strong>33% dos trabalhadores gastam mais de 90 minutos por dia no deslocamento casa-trabalho<\/strong>. Isso n\u00e3o \u00e9 uma inconveni\u00eancia log\u00edstica. \u00c9 jornada n\u00e3o remunerada. Somando ida e volta a seis dias de trabalho, o &#8220;dia de folga&#8221; existe menos como descanso e mais como tempo de recomposi\u00e7\u00e3o para a semana seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Junte as tr\u00eas coisas \u2014 quem, quanto e qu\u00e3o longe \u2014 e o sujeito emp\u00edrico da escala 6&#215;1 aparece com nitidez:&nbsp;<strong>jovem, negro, majoritariamente mulher, morando longe de onde trabalha<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que isso importa: tempo, corpo e ra\u00e7a n\u00e3o s\u00e3o vari\u00e1veis separadas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui vale trazer Frantz Fanon, psiquiatra e te\u00f3rico pol\u00edtico martinicano, autor de&nbsp;<em>Pele negra, m\u00e1scaras brancas<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>Os condenados da terra<\/em>. Fanon descreve, no mundo colonial, uma engrenagem em que economia e ra\u00e7a se explicam mutuamente: &#8220;\u00e9 rico porque \u00e9 branco, \u00e9 branco porque \u00e9 rico&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, a mesma l\u00f3gica opera invertida, pela base:&nbsp;<strong>voc\u00ea \u00e9 pobre porque \u00e9 negro; voc\u00ea \u00e9 negro porque \u00e9 pobre<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 uma frase de efeito \u2014 \u00e9 o que os n\u00fameros do DIEESE descrevem quando mostram a mesma popula\u00e7\u00e3o concentrada embaixo e ausente em cima, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que Fanon acrescenta ao debate sobre jornada \u00e9 o v\u00ednculo entre tempo e corpo. Ele observa que o colonizado &#8220;aprende a ficar em seu lugar&#8221; \u2014 a fixa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 feita s\u00f3 por lei, \u00e9 feita por geografia, por sal\u00e1rio, por qual bairro fica a quantos quil\u00f4metros de qual emprego. No Brasil contempor\u00e2neo, essa fixa\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa de caserna. Ela se faz com pre\u00e7o de aluguel, malha de transporte e a distribui\u00e7\u00e3o racial de quais ocupa\u00e7\u00f5es est\u00e3o dispon\u00edveis para quem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escala 6&#215;1, nesse arranjo, reduz a pessoa \u00e0s horas em que ela est\u00e1 dispon\u00edvel: um corpo que existe para ser consumido pela empresa e restaurado apenas o suficiente para voltar. Discutir se s\u00e3o 44 ou 40 horas sem discutir isso \u00e9 discutir metade do problema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas Fanon \u00e9 igualmente preciso sobre o outro lado: o sujeito fixado \u00e9 &#8220;dominado, mas n\u00e3o domesticado; inferiorizado, mas n\u00e3o convencido&#8221;. A energia que a estrutura n\u00e3o consegue esgotar \u00e9 exatamente a que apareceu num v\u00eddeo de TikTok em 2023.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A armadilha: quando &#8220;liberdade individual&#8221; significa menos prote\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por isso que a contraproposta merece aten\u00e7\u00e3o redobrada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A PEC 12\/2026 n\u00e3o ataca a demanda de frente. Ela redefine seus termos. Em vez de redu\u00e7\u00e3o coletiva da jornada, oferece&nbsp;<strong>flexibilidade individual<\/strong>: voc\u00ea negocia seu hor\u00e1rio, voc\u00ea define suas horas, voc\u00ea escolhe. Formalmente, \u00e9 autonomia. Na pr\u00e1tica, \u00e9 o que a literatura internacional chama de contrato de zero hora \u2014 sem n\u00famero m\u00ednimo de horas garantido, com renda imprevis\u00edvel e o risco da atividade econ\u00f4mica transferido do empregador para o trabalhador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fanon tem um nome para esse gesto:&nbsp;<strong>pseudorrespeito<\/strong>. \u00c9 o apelo formal \u00e0 autonomia e \u00e0 dignidade de quem \u00e9 dominado, feito de um jeito que n\u00e3o leva a s\u00e9rio os valores dessa pessoa \u2014 s\u00f3 a fixa melhor no lugar onde j\u00e1 estava. No mundo colonial, isso aparecia como preservar a &#8220;cultura nativa&#8221; enquanto se esvazia sua capacidade de produzir vida. No mercado de trabalho perif\u00e9rico, aparece como &#8220;autonomia do trabalhador&#8221;: o discurso que reconhece a capacidade individual de chegar a qualquer lugar e nega as condi\u00e7\u00f5es estruturais de exerc\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O detalhe cruel \u00e9 que a promessa \u00e9 sistematicamente desmentida pelos pr\u00f3prios dados. Se m\u00e9rito individual dissolvesse a estrutura, pessoas negras n\u00e3o seriam 70% embaixo e 27% em cima. A m\u00edstica do trabalho oferece uma sa\u00edda individual que a estrutura bloqueia de forma estatisticamente regular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o significa que a demanda por autonomia seja falsa. Significa que ela \u00e9 ambivalente: pode ser o come\u00e7o de uma recusa real ou a reprodu\u00e7\u00e3o da mesma engrenagem com outro nome. O que decide entre as duas coisas \u00e9 se a prote\u00e7\u00e3o \u00e9 coletiva ou se cada um negocia sozinho com quem tem mais poder que ele.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o: &#8220;vida al\u00e9m do trabalho&#8221; n\u00e3o \u00e9 sobre horas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O nome do movimento \u00e9 o argumento mais preciso de todo esse ciclo. &#8220;Vida Al\u00e9m do Trabalho&#8221; n\u00e3o pede uma escala mais amena \u2014 afirma que existe vida que n\u00e3o cabe no tempo cedido ao capital, e que o corpo tem valor fora da sua fun\u00e7\u00e3o produtiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta que fica aberta n\u00e3o \u00e9 se a reforma passa no Senado. \u00c9 quem controla o sentido da vit\u00f3ria, caso ela venha. Se a aprova\u00e7\u00e3o encerra o assunto e o movimento se dissolve, teremos mais um epis\u00f3dio de acomoda\u00e7\u00e3o. Se a aprova\u00e7\u00e3o for o ponto de partida de um sujeito pol\u00edtico que continua perguntando, ter\u00e1 sido outra coisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fanon fecha&nbsp;<em>Pele negra, m\u00e1scaras brancas<\/em>&nbsp;com uma ora\u00e7\u00e3o que serve bem aqui: &#8220;\u00d3 meu corpo, fa\u00e7a sempre de mim um homem que questiona!&#8221;. O corpo que questiona n\u00e3o descansa na vit\u00f3ria obtida. Ele continua interrogando as condi\u00e7\u00f5es sob as quais a vida \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os jovens negros e perif\u00e9ricos que sustentam a escala 6&#215;1, esse conflito \u00e9 o primeiro momento dessa descoberta. N\u00e3o \u00e9 a conclus\u00e3o dela.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias<\/h3>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Arrais, T. A.; Ribeiro, R. L. C.; Andrade, M. A. C. (orgs.).&nbsp;<em>Atlas comentado da escala 6&#215;1 no Brasil<\/em>. Niter\u00f3i: Uan\u00e1 Editora, 2025.<\/li>\n\n\n\n<li>DIEESE.&nbsp;<em>Boletim Especial \u2014 Apesar dos avan\u00e7os, persiste a desigualdade racial de renda<\/em>. 2024.<\/li>\n\n\n\n<li>Fanon, Frantz.&nbsp;<em>Pele negra, m\u00e1scaras brancas<\/em>. S\u00e3o Paulo: Ubu Editora, 2020.<\/li>\n\n\n\n<li>Fanon, Frantz.&nbsp;<em>Os condenados da terra<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.<\/li>\n\n\n\n<li>Fanon, Frantz. &#8220;Racismo e cultura&#8221;. In:&nbsp;<em>Em defesa da revolu\u00e7\u00e3o africana<\/em>. 1956.<\/li>\n\n\n\n<li>Krein, J. D.; Teixeira, M. &#8220;A PEC 12\/2026 como cavalo de Troia da precariza\u00e7\u00e3o&#8221;. IHU\/Unisinos, 2026.<\/li>\n\n\n\n<li>Quijano, An\u00edbal. &#8220;Colonialidade do poder, eurocentrismo e Am\u00e9rica Latina&#8221;. CLACSO, 2005.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Este texto \u00e9 uma vers\u00e3o para o p\u00fablico em geral do artigo &#8220;Life Beyond Work: Fanon, Political Agency, and Conflicts Over the 6\u00d71 Schedule in Brazil&#8221; (Carlos Eduardo de Souza, UC Riverside, 2026).<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em setembro de 2023, um balconista de farm\u00e1cia do Rio de Janeiro gravou um desabafo no TikTok e chamou a escala 6&#215;1 de &#8220;escravid\u00e3o moderna \u2014 moderna n\u00e3o, ultrapassada&#8221;. Tr\u00eas anos depois, aquele v\u00eddeo virou tr\u00eas milh\u00f5es de assinaturas, um movimento nacional, um mandato de vereador e uma PEC aprovada na C\u00e2mara. 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