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Polarização ou Governança? A Verdade Sobre a Seleção Estratégica de Testemunhas no Congresso dos EUA

Polarização ou Governança? A Verdade Sobre a Seleção Estratégica de Testemunhas no Congresso dos EUA

Carlos Souza by Carlos Souza
2026-06-26
in Política & Instituições
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Desde a “Revolução Republicana” de 1995, liderada por Newt Gingrich, a narrativa dominante sobre o Congresso dos Estados Unidos tem sido a de uma polarização galopante. A sabedoria convencional sugere que a guerra partidária não apenas contaminou o processo de votação, mas também a própria infraestrutura da produção legislativa: as comissões.

Em meu novo manuscrito, “Control of the Information Agenda: Legislative Cartels and the Strategic Selection of Witnesses in U.S. Congressional Hearings”, desafio essa percepção ao investigar se os partidos majoritários realmente transformaram as audiências públicas em mero teatro político, ou se a necessidade institucional de governar ainda prevalece sobre o sectarismo.

O Dilema Teórico: O Partido ou a Instituição?

A literatura clássica do século XX, representada por figuras como Shepsle, Weingast e Krehbiel, sempre tratou as comissões como guardiãs da especialização. Para eles, esses órgãos serviam para reduzir a assimetria de informação, atuando como agentes neutros do plenário. Contudo, teorias mais recentes, como a do Cartel Partidário Condicional (Aldrich et al., 2022), pintam um quadro diferente: em tempos de alta polarização, o partido majoritário captura a agenda não apenas para controlar votos, mas para manipular a própria informação que chega ao debate.

A minha pesquisa testa a validade dessa “captura informacional”. A premissa é sedutora: se um partido age como um cartel, ele deveria priorizar testemunhas que validem sua “marca” política (sinalização ideológica) em detrimento de especialistas técnicos, especialmente em cenários de Governo Dividido, onde a obstrução ao Executivo se torna a moeda corrente.

Metodologia e Surpresas Empíricas

Utilizando um vasto conjunto de dados sobre audiências na Câmara dos Representantes (pós-1995) e analisando a composição das testemunhas — segregando burocratas e acadêmicos (perfil técnico) de representantes de interesses e sindicatos (perfil político) —, os resultados foram contraintuitivos e desafiam o cinismo habitual sobre a política americana.

Ao contrário do que a teoria do Cartel Partidário sugeriria, a alternância de poder e a configuração de Governo Dividido não alteraram estatisticamente a busca por expertise técnica.

Duas descobertas se destacam:

  1. O Mito Anti-Ciência: Os dados indicam que, ceteris paribus, o Partido Republicano tende a convocar uma proporção marginalmente maior de analistas técnicos do que os Democratas. Isso desmantela a caricatura de um comportamento uniformemente avesso à expertise técnica por parte da legenda conservadora no âmbito das comissões.
  2. A Capacidade Importa Mais que a Ideologia: O fator mais robusto para prever a presença de especialistas em uma audiência não é a cor do partido no comando, mas o tamanho do staff da comissão. Comissões com mais recursos humanos conseguem filtrar e atrair melhor o conhecimento técnico, independentemente da polarização externa.

A Resiliência da “Agenda Obrigatória”

O que esses dados nos dizem sobre o funcionamento real do Legislativo? Eles sugerem que, apesar do ruído estridente da polarização na mídia e no plenário, a “casa de máquinas” do Congresso — as comissões — opera sob uma lógica de governança.

Como apontam Adler e Wilkerson (2007), existe uma “Agenda Obrigatória” (orçamentos, reautorizações de programas) que precisa andar. Meus achados corroboram a tese de que a inércia institucional e a necessidade técnica de legislar funcionam como um dique de contenção contra a politização total da informação. A seleção de testemunhas reflete mais as rotinas jurisdicionais e a complexidade dos temas do que táticas de guerrilha partidária.

Conclusão

Este estudo é um convite para repensarmos o alcance da polarização. Embora os partidos tentem controlar a narrativa, as engrenagens burocráticas e a responsabilidade de governar impõem limites severos a esse controle. As audiências no Congresso americano, ao menos no período analisado, parecem resistir à tentação de se tornarem puramente performáticas, mantendo-se como canais vitais, ainda que imperfeitos, de especialização técnica.

O manuscrito completo, com os modelos de regressão e a análise detalhada dos dados, está disponível para leitura e comentários.

Tags: American PoliticsCongresso dos EUApolarizaçãotestemunhas
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Carlos Souza

Carlos Souza

Carlos Eduardo de Souza é pesquisador, cientista de dados e doutorando em Ciência Política na University of California, Riverside (UCR). Com formação em Administração, MBA em Finanças pelo Insper e Mestrado em Tecnologias Inteligentes & Design Digital pela PUC-SP, reúne duas décadas de experiência na interseção entre análise de dados, estratégia e métodos quantitativos — com passagem por empresas como Bayer, Serasa Experian, TransUnion e Itaú. No doutorado, suas pesquisas se concentram em política americana, economia política internacional e métodos computacionais aplicados às ciências sociais. Investiga temas como a hegemonia do dólar no sistema financeiro global, a dinâmica de poder no Congresso americano e o papel crescente da inteligência artificial na análise política. Neste espaço, traduz esse universo acadêmico para o grande público — explorando, em português e em inglês, as conexões entre poder, tecnologia e democracia no mundo contemporâneo.

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É o quanto o deputado federal eleito mediano é mais rico que o candidato mediano. A barreira de entrada na política brasileira não está no registro da candidatura. Está entre a candidatura e a cadeira.

Comparamos três camadas do processo eleitoral brasileiro (quem vota, quem se candidata e quem vence) na Câmara e no Senado, em 2018 e 2022. O padrão se repete em todas as dimensões que medimos.

Mulheres são 52,6% do eleitorado e 17,7% das deputadas eleitas. Pretos e pardos são 55,2% da população adulta e 26,3% dos eleitos. 82,7% dos eleitos têm diploma superior, contra 17,2% da população.

Quase toda comparação sobre representação política para na camada de candidaturas. É justamente na passagem seguinte, a de quem vence, que a distância se aprofunda.

Uma ressalva que fica no texto, não em nota de rodapé: a análise é descritiva. Ela mede os estágios do funil, não as causas de cada filtro.

Análise completa no link da bio.

Fontes: TSE (perfil do eleitorado, candidaturas e declarações de bens) e IBGE (PNAD Contínua, Censo 2022).

#política #políticabrasileira #congressonacional #ciênciapolítica #dados #dadosabertos #representatividade #representaçãopolítica #eleições #desigualdade #jornalismodedados #tse #ibge
  • Em 2023 um balconista de farmácia gravou um desabafo no TikTok e chamou a escala 6x1 de "escravidão moderna — moderna não, ultrapassada".

Três anos depois: 3 milhões de assinaturas, um movimento nacional, um mandato de vereador e uma PEC aprovada na Câmara.

Só que quase todo o debate virou conta de horas. 44 ou 40. Custo ou competitividade.

Fui olhar quem, de fato, cumpre essa jornada — e os dados são bem mais específicos que "o trabalhador brasileiro":

📊 Jovens de 18 a 24 anos, negros, periféricos, concentrados no comércio 💰 73% da população negra ganha até R$ 2.120/mês — 80,7% entre mulheres negras 🚌 33% gastam mais de 90 minutos por dia só no deslocamento ⚠️ Negros são 70% nas 10 ocupações que pagam pior e 27% nas 10 que pagam melhor

Frantz Fanon descreveu no mundo colonial uma engrenagem em que raça e economia se explicam mutuamente: "é rico porque é branco, é branco porque é rico". No Brasil pós-abolição a mesma lógica opera invertida, por baixo.

A PEC das 40h está no Senado há mais de dois meses. E já tem contraproposta: flexibilidade individual, cada um negociando seu horário direto com o patrão. Pesquisadores do CESIT/Unicamp chamaram isso de cavalo de Troia da precarização.

O nome do movimento continua sendo o melhor argumento do ciclo inteiro: Vida Além do Trabalho. Não é pedir uma escala mais amena. É dizer que existe vida que não cabe no tempo cedido ao trabalho.

Análise completa com dados e referências no link da bio.

— #escala6x1 #economiapolitica
  • A máscara que o Brasil não quer tirar. Frantz Fanon e as cotas raciais: o debate que revela o racismo disfarçado de mérito. Em 14 anos de cotas, quase 2 milhões de cotistas mostraram que o ponto de partida nunca foi igual. Descubra mais na série Fanon e o Brasil. Texto completo no link na bio.
  • Descubra Frantz Fanon, o psiquiatra revolucionário que desvendou o racismo como estrutura política. Nascido em Martinica, ele expôs as contradições do colonialismo e defendeu a cura coletiva. Conheça suas ideias poderosas sobre a violência e a descolonização, ainda relevantes hoje. Acesse a análise completa no link na bio. #FrantzFanon #Racismo #Descolonização
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