Em 2022, 156,5 milhões de eleitores foram às urnas para escolher 513 deputados federais e 27 senadores. Quem votou e quem se candidatou já eram dois grupos estatisticamente distintos. Mas quem venceu é ainda mais diferente de quem vota do que de quem apenas concorreu. Essa distância não é um detalhe: ela cresce de forma sistemática a cada etapa do processo eleitoral.
Cruzamos os cadastros do TSE (perfil do eleitorado, candidaturas e declarações de bens) com a PNAD Contínua e o Censo 2022 do IBGE para comparar três camadas (quem vota, quem se candidata e quem vence) em termos de patrimônio, gênero, raça, idade e instrução, nas eleições de 2018 e 2022 para a Câmara dos Deputados e o Senado. Este texto apresenta a tese central do projeto, o método utilizado para chegar aos números e os cinco achados que sustentam o argumento, sem deixar de fora os limites que uma leitura honesta desses dados exige.
Por que isso importa: o funil da representação
A pergunta por trás deste projeto é simples de enunciar e difícil de responder com rigor: o Congresso se parece com quem representa?
Para responder sem cair em impressionismo, dividimos o processo eleitoral em três camadas e comparamos cada uma à anterior:
A. quem vota (147,3 milhões de eleitores em 2018; 156,5 milhões em 2022) → B. quem se candidata (9.457 candidaturas à Câmara e 206 ao Senado em 2022) → C. quem vence (513 deputados e 27 senadores).
A métrica que atravessa todo o projeto é a razão de representação: a fatia de um grupo entre candidatos (ou eleitos) dividida pela fatia desse mesmo grupo no eleitorado. O valor 1 indica espelho perfeito, ou seja, o grupo ocupa, entre os candidatos ou entre os eleitos, exatamente a mesma proporção que ocupa entre os eleitores. Acima de 1, o grupo está sobrerrepresentado; abaixo de 1, sub-representado.
O achado estrutural que organiza tudo o que vem a seguir: em quase todas as dimensões medidas, a camada C (eleitos) está mais distante do eleitorado do que a camada B (candidatos). Isto é, o afunilamento não termina na decisão de concorrer: ele se aprofunda entre concorrer e vencer. Um retrato que olhasse só para “quem se candidata” contaria uma história bem mais otimista e incompleta do que a que os dados mostram quando se soma a camada dos eleitos.
Como chegamos a esses números: a metodologia
Números sobre representação política costumam ser contestados não pelo resultado, mas pela comparação: com o quê, exatamente, o Congresso está sendo comparado? A escolha do “baseline” é, aqui, a decisão mais importante do trabalho e altera a escala.
A amostra. Candidaturas registradas a deputado federal e senador titular (suplentes de senador ficam de fora) em 2018 e 2022, nas condições aptas (deferidas, inclusive com recurso) ou eleitas. No final: 7.628 candidaturas e 320 eleitos em 2018; 9.457 e 206 em 2022.
Um baseline diferente para cada dimensão, e por um motivo técnico específico:
- Gênero e idade → eleitorado do TSE. É cadastro, não amostra, então permite comparar candidato a eleitor sem margem de erro amostral.
- Instrução e raça → PNAD Contínua (IBGE), população de 18 anos ou mais, com validação de nível pelo Censo 2022. Por que não o cadastro eleitoral, que também tem esses campos? Porque a escolaridade registrada no TSE é declarada no momento do alistamento e quase nunca é atualizada. Usá-la subestimaria a escolaridade real do eleitor e inflaria artificialmente a distância entre eleitor e eleito. E o campo de raça no cadastro eleitoral só passou a ser coletado de forma voluntária a partir de 2022 e 2023, com cobertura tão baixa que não pode ser usada como baseline. Esta é, sozinha, a escolha metodológica que mais diferencia este projeto de comparações que circulam na imprensa, que usam o cadastro do TSE de ambos os lados.
- Patrimônio → sem baseline populacional, porque o Brasil simplesmente não mede riqueza domiciliar (a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD – mede renda; a Pesquisa de Orçamento Familiar – POF – mede consumo). A saída foi traduzir o patrimônio mediano em anos de renda domiciliar per capita mediana, uma métrica interpretável, não uma comparação forçada entre grandezas diferentes.
Três regras de rigor que valem para todo o projeto:
- Sempre mediana e percentis, nunca média. Um único candidato bilionário desloca a média nacional sozinho, mas não a mediana.
- Valores de patrimônio deflacionados pelo IPCA (de out/2018 a out/2022, fator 1,25), antes de qualquer comparação entre os anos.
- Linguagem: a referência é sempre “eleitor” ou “população adulta”, nunca “brasileiro médio”. Misturar os dois no mesmo gráfico é o erro mais comum nesse tipo de comparação, e é exatamente o que este projeto evita.
Os números foram verificados contra totais oficiais antes da publicação: o eleitorado bate com os totais do TSE (exato em 2022; diferença de 0,0027% em 2018), as contagens de eleitos fecham em 513 deputados por ano e 54 (2018) e 27 (2022) senadores, e a renda domiciliar per capita, calculada a partir dos microdados da PNAD, confere com o valor publicado pelo IBGE nos dois anos (-0,6% em 2018, -1,3% em 2022).
O que os dados mostram: cinco achados
1. Patrimônio: o salto acontece entre candidatar-se e ganhar
O senador eleito mediano declara patrimônio equivalente a 92 anos de renda do eleitor mediano.
| Grupo | Patrimônio mediano (2022) | Anos de renda |
|---|---|---|
| Candidato mediano à Câmara | R$ 77,9 mil | 6,3 |
| Deputado eleito mediano | R$ 1,01 milhão | 81 |
| Candidato mediano ao Senado | R$ 657 mil | 53 |
| Senador eleito mediano | R$ 1,15 milhão | 92 |
(Denominador: renda domiciliar per capita mediana do país, R$ 1.035/mês, segundo a PNAD Contínua Anual 2022.)
O número mais forte do conjunto é a comparação dentro da própria Câmara: o deputado eleito mediano é 13 vezes mais rico do que o candidato mediano. Isso mostra que o filtro entre concorrer e vencer é, em boa parte, econômico, e não apenas de popularidade ou de organização partidária. Regionalmente, a distância também varia: o deputado eleito mediano do Norte declara 177 anos de renda do eleitor da sua região; no Sudeste, 59.
Ressalva: bens declarados ao TSE são registrados pelo valor de aquisição, não pelo de mercado, e imóveis antigos aparecem subavaliados. Isso torna os números acima um piso, não um teto. Declaração zero, além disso, é ambígua: pode significar ausência de bens ou ausência de declaração.

2. Gênero: a cota virou candidatura, não cadeira
Mulheres são 52,6% do eleitorado, 35,3% das candidaturas à Câmara e 17,7% das eleitas.
| Eleitorado | Candidatas | Eleitas | |
|---|---|---|---|
| Câmara | 52,6% | 35,3% (razão 0,67) | 17,7% (razão 0,34) |
| Senado | 52,6% | 24,3% (razão 0,46) | 14,8% (razão 0,28) |
A razão de representação cai pela metade entre candidatar-se e vencer. Um retrato que parasse na camada de candidaturas, como fazem muitas coberturas sob a cumplicidade de cota de gênero, faria o sistema parecer duas vezes menos excludente do que é na prática. E a série histórica mostra uma segunda camada do problema: entre 2018 e 2022, a razão de candidaturas femininas na Câmara subiu de 0,60 para 0,67, mas a razão de eleitas cresceu menos, de 0,29 para 0,34. A entrada aumentou mais rápido do que a chegada.
Ressalva: esta é uma análise descritiva. Ela mede os estágios do funil, mas não separa oferta (quem se dispõe a concorrer), filtro partidário (quem o partido de fato viabiliza) e filtro eleitoral (quem o eleitor escolhe) como causas distintas.

3. Instrução: a maior distância de todas
Oito em cada dez deputados eleitos têm diploma. Na população adulta, menos de dois em cada dez.
| População 18+ | Candidatos (Câmara) | Eleitos (Câmara) | |
|---|---|---|---|
| Superior completo | 17,2% | 59,0% (razão 3,4) | 82,7% (razão 4,8) |
| Sem instrução / fundamental incompleto | 30,5% | 2,8% | 0,8% (razão 0,03) |
A razão 4,8 é a maior entre todas as dimensões medidas neste projeto, superando as de gênero e de raça. No Senado, o padrão se repete: 81,5% dos eleitos têm diploma (razão de 4,7). E há um detalhe que muda o sentido da série histórica: a razão caiu de 5,5 (2018) para 4,8 (2022), mas por baixo. Quem mudou foi o eleitor, cuja escolaridade com diploma subiu de 14,7% para 17,2%, não a bancada, que foi de 81,3% para 82,7%.
Nota metodológica que vale repetir aqui: se tivéssemos usado o cadastro eleitoral do TSE, congelado no momento do alistamento, dos dois lados da comparação, a distância medida seria maior e espúria. É por isso que este 4,8, calculado com a PNAD Contínua nos dois lados, é menor e mais confiável do que os números que costumam circular na imprensa.
Ressalva: os quatro níveis de instrução foram harmonizados por meio de um crosswalk explícito entre a classificação do TSE e a do IBGE; “superior incompleto” no TSE é incluído no bloco “médio completo/superior incompleto”.

4. Raça: o sistema fica mais branco a cada etapa
Pretos e pardos são 55% da população adulta, 48% das candidaturas à Câmara e 26% dos eleitos.
| População 18+ | Candidatos | Eleitos | |
|---|---|---|---|
| Pretos + pardos | 55,2% | 47,8% | 26,3% |
| Brancos | 43,6% | 50,6% (razão 1,16) | 71,9% (razão 1,65) |
O detalhe que dá a manchete fina: candidaturas de pessoas pretas entram sobrerrepresentadas (razão 1,27) e saem com a razão cortada quase pela metade (0,48). Candidaturas pardas já entram sub-representadas (0,77) e terminam pior (0,48). Ou seja, os dois grupos convergem para o mesmo patamar de sub-representação entre os eleitos, a partir de pontos de partida distintos. E o padrão se repete nas cinco regiões do país sem exceção: do Sul, onde pretos e pardos são 25,6% do eleitorado e caem para 6,5% dos eleitos, ao Norte, onde são 78,9% do eleitorado e caem para 47,7% dos eleitos.
Um cruzamento que dá contexto ao achado: em 2020, o TSE definiu a divisão racial do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (Consulta 0600306-47) proporcional à autodeclaração racial dos candidatos do partido. As candidaturas negras cresceram depois disso, mas sem crescimento proporcional entre os eleitos. O funil mostra exatamente onde esse crescimento para.
Ressalva dupla: (i) a raça do candidato é autodeclarada no momento do registro e tem um componente estratégico documentado (ver o achado 5, abaixo); (ii) a validação contra o Censo 2022 fecha bem no agregado nacional (diferença de até 0,3 ponto percentual, falha em 1 de 25 pares por região), mas estoura ±2 pontos percentuais em 30 de 135 pares por unidade da federação, concentrados em Roraima, Acre, Amazonas e Amapá. 

5. Um em cada cinco candidatos à reeleição mudou de cor declarada
Entre quem concorreu em 2018 e em 2022, 21,4% declararam cor ou raça diferente nas duas eleições.
Construímos um painel com 6.413 CPFs presentes em ambas as eleições, em todos os cargos (taxa de pareamento: 22,2%). O fluxo é de mão dupla, mas com saldo líquido para o lado preto/pardo: 555 candidatos que se declararam brancos em 2018 se declararam pardos em 2022, contra 385 no sentido inverso; 219 foram de pardo a preto, contra 90 no sentido inverso. A fronteira entre a categoria”parda” e as demais é a que mais se move: estabilidade de 69,5% para pardos, contra 83% a 86% nas demais categorias. A taxa de reclassificação é menor entre os eleitos (15,6% contra 22,7% entre os não eleitos) e maior no Norte (26,1%) e no Centro-Oeste (24,8%) do que no Sul (7,7%).
O momento não é aleatório: o período coincide exatamente com a mudança de 2020 no critério de divisão racial do FEFC. Isso não prova, por si só, intenção estratégica em nenhum caso individual, mas é o tipo de coincidência temporal que qualquer leitura da política de ação afirmativa por autodeclaração precisa levar em conta.
Ressalva: o painel é seleto por construção, pois só entram candidatos que concorreram em ambas as eleições. Não representa a população de candidatos, muito menos a população brasileira. E o dado não permite afirmar intenção individual: mudança de declaração não é, isoladamente, prova de oportunismo.

Bônus: o Senado é mais velho mesmo depois de corrigir pela idade mínima
O Senado exige 35 anos; a Câmara, 21. Parte da distância etária entre os dois é imposta por lei. Por isso refizemos a comparação do Senado contra o eleitorado de 35 anos ou mais (103 milhões de pessoas em 2022):
| Faixa etária | Eleitorado 35+ | Candidatos ao Senado | Eleitos ao Senado |
|---|---|---|---|
| 35 a 44 | 31,1% | 22,9% | 11,1% |
| 45 a 59 | 37,1% | 41,5% | 48,1% |
| 60+ | 31,9% | 35,6% | 40,7% |
Mesmo entre os brasileiros que já poderiam, por idade, ser candidatos ao Senado, o senador eleito típico é mais velho: idade mediana de 58 anos, contra 48 anos entre os deputados eleitos.

O que esses números não dizem
Nenhuma leitura honesta deste projeto pode ignorar seus próprios limites:
- É um retrato, não uma explicação causal. O funil descreve estágios e não separa o quanto de cada distância vem da decisão de concorrer, do filtro partidário na hora de viabilizar candidaturas, ou da escolha do eleitor na urna.
- O patrimônio declarado é um piso, não a riqueza real: os bens são registrados no TSE pelo valor de aquisição, e não pelo valor de mercado.
- O painel de reclassificação racial inclui apenas candidatos à reeleição e não pode ser interpretado como representativo do conjunto de candidatos.
- Recortes estaduais de raça no Norte exigem checagem adicional contra o Censo 2022 antes de qualquer afirmação mais forte, devido à margem de erro identificada na validação.
- A comparação do Senado entre 2018 e 2022 mistura o efeito real e a composição da renovação: em 2018, estavam em disputa 2/3 das vagas (54 eleitos); em 2022, apenas 1/3 (27 eleitos). Bancadas de tamanhos tão diferentes não são diretamente comparáveis sem essa ressalva.
O que fica
O padrão que atravessa as cinco medidas é o mesmo: o Congresso que se senta para legislar é sistematicamente mais rico, mais masculino, mais branco, mais instruído e mais velho do que o Congresso que se candidata, que já é, ele mesmo, mais distante do eleitorado do que se costuma supor. Cada etapa do funil filtra na mesma direção.
Isso não é uma falha de medição nem um artefato metodológico: é o próprio achado. E também é o motivo pelo qual comparar apenas “quem se candidata” com “quem vota”, como costuma aparecer na cobertura do tema, conta uma história incompleta. A camada que falta, a de quem se vê, é a que mais aprofunda a distância.
Quem quiser a análise técnica completa, com a íntegra da metodologia e as notas de robustez, pode acompanhar os perfis nas redes sociais para saber das publicações.
Fontes: TSE (perfil do eleitorado, candidaturas e declarações de bens); IBGE (PNAD Contínua, Censo 2022). Elaboração: Nexus Discursivo.
Trabalho prévio do qual nos diferenciamos: o TSE publicou, em 2025, um relatório estatístico sobre a distribuição de candidaturas, vagas e financiamento por perfil racial; a Câmara e o Senado publicaram comparações de perfis em 2024 (eleições municipais). Citamos esses trabalhos porque nosso diferencial está em três escolhas metodológicas específicas: o baseline correto por dimensão (nunca o cadastro eleitoral do TSE para instrução ou raça), o recorte regional sistemático e a camada de eleitos, sem a qual a distância real fica subestimada.






