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Quem vota, quem se candidata, quem vence: o retrato estatístico do Congresso brasileiro

Quem vota, quem se candidata, quem vence: o retrato estatístico do Congresso brasileiro

Carlos Souza by Carlos Souza
2026-08-17
in Política & Instituições
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Em 2022, 156,5 milhões de eleitores foram às urnas para escolher 513 deputados federais e 27 senadores. Quem votou e quem se candidatou já eram dois grupos estatisticamente distintos. Mas quem venceu é ainda mais diferente de quem vota do que de quem apenas concorreu. Essa distância não é um detalhe: ela cresce de forma sistemática a cada etapa do processo eleitoral.

Cruzamos os cadastros do TSE (perfil do eleitorado, candidaturas e declarações de bens) com a PNAD Contínua e o Censo 2022 do IBGE para comparar três camadas (quem vota, quem se candidata e quem vence) em termos de patrimônio, gênero, raça, idade e instrução, nas eleições de 2018 e 2022 para a Câmara dos Deputados e o Senado. Este texto apresenta a tese central do projeto, o método utilizado para chegar aos números e os cinco achados que sustentam o argumento, sem deixar de fora os limites que uma leitura honesta desses dados exige.

Por que isso importa: o funil da representação

A pergunta por trás deste projeto é simples de enunciar e difícil de responder com rigor: o Congresso se parece com quem representa?

Para responder sem cair em impressionismo, dividimos o processo eleitoral em três camadas e comparamos cada uma à anterior:

A. quem vota (147,3 milhões de eleitores em 2018; 156,5 milhões em 2022) → B. quem se candidata (9.457 candidaturas à Câmara e 206 ao Senado em 2022) → C. quem vence (513 deputados e 27 senadores).

A métrica que atravessa todo o projeto é a razão de representação: a fatia de um grupo entre candidatos (ou eleitos) dividida pela fatia desse mesmo grupo no eleitorado. O valor 1 indica espelho perfeito, ou seja, o grupo ocupa, entre os candidatos ou entre os eleitos, exatamente a mesma proporção que ocupa entre os eleitores. Acima de 1, o grupo está sobrerrepresentado; abaixo de 1, sub-representado.

O achado estrutural que organiza tudo o que vem a seguir: em quase todas as dimensões medidas, a camada C (eleitos) está mais distante do eleitorado do que a camada B (candidatos). Isto é, o afunilamento não termina na decisão de concorrer: ele se aprofunda entre concorrer e vencer. Um retrato que olhasse só para “quem se candidata” contaria uma história bem mais otimista e incompleta do que a que os dados mostram quando se soma a camada dos eleitos.

Como chegamos a esses números: a metodologia

Números sobre representação política costumam ser contestados não pelo resultado, mas pela comparação: com o quê, exatamente, o Congresso está sendo comparado? A escolha do “baseline” é, aqui, a decisão mais importante do trabalho e altera a escala.

A amostra. Candidaturas registradas a deputado federal e senador titular (suplentes de senador ficam de fora) em 2018 e 2022, nas condições aptas (deferidas, inclusive com recurso) ou eleitas. No final: 7.628 candidaturas e 320 eleitos em 2018; 9.457 e 206 em 2022.

Um baseline diferente para cada dimensão, e por um motivo técnico específico:

  • Gênero e idade → eleitorado do TSE. É cadastro, não amostra, então permite comparar candidato a eleitor sem margem de erro amostral.
  • Instrução e raça → PNAD Contínua (IBGE), população de 18 anos ou mais, com validação de nível pelo Censo 2022. Por que não o cadastro eleitoral, que também tem esses campos? Porque a escolaridade registrada no TSE é declarada no momento do alistamento e quase nunca é atualizada. Usá-la subestimaria a escolaridade real do eleitor e inflaria artificialmente a distância entre eleitor e eleito. E o campo de raça no cadastro eleitoral só passou a ser coletado de forma voluntária a partir de 2022 e 2023, com cobertura tão baixa que não pode ser usada como baseline. Esta é, sozinha, a escolha metodológica que mais diferencia este projeto de comparações que circulam na imprensa, que usam o cadastro do TSE de ambos os lados.
  • Patrimônio → sem baseline populacional, porque o Brasil simplesmente não mede riqueza domiciliar (a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD – mede renda; a Pesquisa de Orçamento Familiar – POF – mede consumo). A saída foi traduzir o patrimônio mediano em anos de renda domiciliar per capita mediana, uma métrica interpretável, não uma comparação forçada entre grandezas diferentes.

Três regras de rigor que valem para todo o projeto:

  1. Sempre mediana e percentis, nunca média. Um único candidato bilionário desloca a média nacional sozinho, mas não a mediana.
  2. Valores de patrimônio deflacionados pelo IPCA (de out/2018 a out/2022, fator 1,25), antes de qualquer comparação entre os anos.
  3. Linguagem: a referência é sempre “eleitor” ou “população adulta”, nunca “brasileiro médio”. Misturar os dois no mesmo gráfico é o erro mais comum nesse tipo de comparação, e é exatamente o que este projeto evita.

Os números foram verificados contra totais oficiais antes da publicação: o eleitorado bate com os totais do TSE (exato em 2022; diferença de 0,0027% em 2018), as contagens de eleitos fecham em 513 deputados por ano e 54 (2018) e 27 (2022) senadores, e a renda domiciliar per capita, calculada a partir dos microdados da PNAD, confere com o valor publicado pelo IBGE nos dois anos (-0,6% em 2018, -1,3% em 2022).

O que os dados mostram: cinco achados

1. Patrimônio: o salto acontece entre candidatar-se e ganhar

O senador eleito mediano declara patrimônio equivalente a 92 anos de renda do eleitor mediano.

Grupo Patrimônio mediano (2022) Anos de renda
Candidato mediano à Câmara R$ 77,9 mil 6,3
Deputado eleito mediano R$ 1,01 milhão 81
Candidato mediano ao Senado R$ 657 mil 53
Senador eleito mediano R$ 1,15 milhão 92

(Denominador: renda domiciliar per capita mediana do país, R$ 1.035/mês, segundo a PNAD Contínua Anual 2022.)

O número mais forte do conjunto é a comparação dentro da própria Câmara: o deputado eleito mediano é 13 vezes mais rico do que o candidato mediano. Isso mostra que o filtro entre concorrer e vencer é, em boa parte, econômico, e não apenas de popularidade ou de organização partidária. Regionalmente, a distância também varia: o deputado eleito mediano do Norte declara 177 anos de renda do eleitor da sua região; no Sudeste, 59.

Ressalva: bens declarados ao TSE são registrados pelo valor de aquisição, não pelo de mercado, e imóveis antigos aparecem subavaliados. Isso torna os números acima um piso, não um teto. Declaração zero, além disso, é ambígua: pode significar ausência de bens ou ausência de declaração.

2. Gênero: a cota virou candidatura, não cadeira

Mulheres são 52,6% do eleitorado, 35,3% das candidaturas à Câmara e 17,7% das eleitas.

  Eleitorado Candidatas Eleitas
Câmara 52,6% 35,3% (razão 0,67) 17,7% (razão 0,34)
Senado 52,6% 24,3% (razão 0,46) 14,8% (razão 0,28)

A razão de representação cai pela metade entre candidatar-se e vencer. Um retrato que parasse na camada de candidaturas, como fazem muitas coberturas sob a cumplicidade de cota de gênero, faria o sistema parecer duas vezes menos excludente do que é na prática. E a série histórica mostra uma segunda camada do problema: entre 2018 e 2022, a razão de candidaturas femininas na Câmara subiu de 0,60 para 0,67, mas a razão de eleitas cresceu menos, de 0,29 para 0,34. A entrada aumentou mais rápido do que a chegada.

Ressalva: esta é uma análise descritiva. Ela mede os estágios do funil, mas não separa oferta (quem se dispõe a concorrer), filtro partidário (quem o partido de fato viabiliza) e filtro eleitoral (quem o eleitor escolhe) como causas distintas.

3. Instrução: a maior distância de todas

Oito em cada dez deputados eleitos têm diploma. Na população adulta, menos de dois em cada dez.

  População 18+ Candidatos (Câmara) Eleitos (Câmara)
Superior completo 17,2% 59,0% (razão 3,4) 82,7% (razão 4,8)
Sem instrução / fundamental incompleto 30,5% 2,8% 0,8% (razão 0,03)

A razão 4,8 é a maior entre todas as dimensões medidas neste projeto, superando as de gênero e de raça. No Senado, o padrão se repete: 81,5% dos eleitos têm diploma (razão de 4,7). E há um detalhe que muda o sentido da série histórica: a razão caiu de 5,5 (2018) para 4,8 (2022), mas por baixo. Quem mudou foi o eleitor, cuja escolaridade com diploma subiu de 14,7% para 17,2%, não a bancada, que foi de 81,3% para 82,7%.

Nota metodológica que vale repetir aqui: se tivéssemos usado o cadastro eleitoral do TSE, congelado no momento do alistamento, dos dois lados da comparação, a distância medida seria maior e espúria. É por isso que este 4,8, calculado com a PNAD Contínua nos dois lados, é menor e mais confiável do que os números que costumam circular na imprensa.

Ressalva: os quatro níveis de instrução foram harmonizados por meio de um crosswalk explícito entre a classificação do TSE e a do IBGE; “superior incompleto” no TSE é incluído no bloco “médio completo/superior incompleto”.

4. Raça: o sistema fica mais branco a cada etapa

Pretos e pardos são 55% da população adulta, 48% das candidaturas à Câmara e 26% dos eleitos.

  População 18+ Candidatos Eleitos
Pretos + pardos 55,2% 47,8% 26,3%
Brancos 43,6% 50,6% (razão 1,16) 71,9% (razão 1,65)

O detalhe que dá a manchete fina: candidaturas de pessoas pretas entram sobrerrepresentadas (razão 1,27) e saem com a razão cortada quase pela metade (0,48). Candidaturas pardas já entram sub-representadas (0,77) e terminam pior (0,48). Ou seja, os dois grupos convergem para o mesmo patamar de sub-representação entre os eleitos, a partir de pontos de partida distintos. E o padrão se repete nas cinco regiões do país sem exceção: do Sul, onde pretos e pardos são 25,6% do eleitorado e caem para 6,5% dos eleitos, ao Norte, onde são 78,9% do eleitorado e caem para 47,7% dos eleitos.

Um cruzamento que dá contexto ao achado: em 2020, o TSE definiu a divisão racial do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (Consulta 0600306-47) proporcional à autodeclaração racial dos candidatos do partido. As candidaturas negras cresceram depois disso, mas sem crescimento proporcional entre os eleitos. O funil mostra exatamente onde esse crescimento para.

Ressalva dupla: (i) a raça do candidato é autodeclarada no momento do registro e tem um componente estratégico documentado (ver o achado 5, abaixo); (ii) a validação contra o Censo 2022 fecha bem no agregado nacional (diferença de até 0,3 ponto percentual, falha em 1 de 25 pares por região), mas estoura ±2 pontos percentuais em 30 de 135 pares por unidade da federação, concentrados em Roraima, Acre, Amazonas e Amapá. 

5. Um em cada cinco candidatos à reeleição mudou de cor declarada

Entre quem concorreu em 2018 e em 2022, 21,4% declararam cor ou raça diferente nas duas eleições.

Construímos um painel com 6.413 CPFs presentes em ambas as eleições, em todos os cargos (taxa de pareamento: 22,2%). O fluxo é de mão dupla, mas com saldo líquido para o lado preto/pardo: 555 candidatos que se declararam brancos em 2018 se declararam pardos em 2022, contra 385 no sentido inverso; 219 foram de pardo a preto, contra 90 no sentido inverso. A fronteira entre a categoria”parda” e as demais é a que mais se move: estabilidade de 69,5% para pardos, contra 83% a 86% nas demais categorias. A taxa de reclassificação é menor entre os eleitos (15,6% contra 22,7% entre os não eleitos) e maior no Norte (26,1%) e no Centro-Oeste (24,8%) do que no Sul (7,7%).

O momento não é aleatório: o período coincide exatamente com a mudança de 2020 no critério de divisão racial do FEFC. Isso não prova, por si só, intenção estratégica em nenhum caso individual, mas é o tipo de coincidência temporal que qualquer leitura da política de ação afirmativa por autodeclaração precisa levar em conta.

Ressalva: o painel é seleto por construção, pois só entram candidatos que concorreram em ambas as eleições. Não representa a população de candidatos, muito menos a população brasileira. E o dado não permite afirmar intenção individual: mudança de declaração não é, isoladamente, prova de oportunismo.

Bônus: o Senado é mais velho mesmo depois de corrigir pela idade mínima

O Senado exige 35 anos; a Câmara, 21. Parte da distância etária entre os dois é imposta por lei. Por isso refizemos a comparação do Senado contra o eleitorado de 35 anos ou mais (103 milhões de pessoas em 2022):

Faixa etária Eleitorado 35+ Candidatos ao Senado Eleitos ao Senado
35 a 44 31,1% 22,9% 11,1%
45 a 59 37,1% 41,5% 48,1%
60+ 31,9% 35,6% 40,7%

Mesmo entre os brasileiros que já poderiam, por idade, ser candidatos ao Senado, o senador eleito típico é mais velho: idade mediana de 58 anos, contra 48 anos entre os deputados eleitos.

O que esses números não dizem

Nenhuma leitura honesta deste projeto pode ignorar seus próprios limites:

  • É um retrato, não uma explicação causal. O funil descreve estágios e não separa o quanto de cada distância vem da decisão de concorrer, do filtro partidário na hora de viabilizar candidaturas, ou da escolha do eleitor na urna.
  • O patrimônio declarado é um piso, não a riqueza real: os bens são registrados no TSE pelo valor de aquisição, e não pelo valor de mercado.
  • O painel de reclassificação racial inclui apenas candidatos à reeleição e não pode ser interpretado como representativo do conjunto de candidatos.
  • Recortes estaduais de raça no Norte exigem checagem adicional contra o Censo 2022 antes de qualquer afirmação mais forte, devido à margem de erro identificada na validação.
  • A comparação do Senado entre 2018 e 2022 mistura o efeito real e a composição da renovação: em 2018, estavam em disputa 2/3 das vagas (54 eleitos); em 2022, apenas 1/3 (27 eleitos). Bancadas de tamanhos tão diferentes não são diretamente comparáveis sem essa ressalva.

O que fica

O padrão que atravessa as cinco medidas é o mesmo: o Congresso que se senta para legislar é sistematicamente mais rico, mais masculino, mais branco, mais instruído e mais velho do que o Congresso que se candidata, que já é, ele mesmo, mais distante do eleitorado do que se costuma supor. Cada etapa do funil filtra na mesma direção.

Isso não é uma falha de medição nem um artefato metodológico: é o próprio achado. E também é o motivo pelo qual comparar apenas “quem se candidata” com “quem vota”, como costuma aparecer na cobertura do tema, conta uma história incompleta. A camada que falta, a de quem se vê, é a que mais aprofunda a distância.

Quem quiser a análise técnica completa, com a íntegra da metodologia e as notas de robustez, pode acompanhar os perfis nas redes sociais para saber das publicações.


Fontes: TSE (perfil do eleitorado, candidaturas e declarações de bens); IBGE (PNAD Contínua, Censo 2022). Elaboração: Nexus Discursivo.

Trabalho prévio do qual nos diferenciamos: o TSE publicou, em 2025, um relatório estatístico sobre a distribuição de candidaturas, vagas e financiamento por perfil racial; a Câmara e o Senado publicaram comparações de perfis em 2024 (eleições municipais). Citamos esses trabalhos porque nosso diferencial está em três escolhas metodológicas específicas: o baseline correto por dimensão (nunca o cadastro eleitoral do TSE para instrução ou raça), o recorte regional sistemático e a camada de eleitos, sem a qual a distância real fica subestimada.

Tags: congresso brasileiroeleiçõeseleitorespolítica
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Carlos Souza

Carlos Souza

Carlos Eduardo de Souza é pesquisador, cientista de dados e doutorando em Ciência Política na University of California, Riverside (UCR). Com formação em Administração, MBA em Finanças pelo Insper e Mestrado em Tecnologias Inteligentes & Design Digital pela PUC-SP, reúne duas décadas de experiência na interseção entre análise de dados, estratégia e métodos quantitativos — com passagem por empresas como Bayer, Serasa Experian, TransUnion e Itaú. No doutorado, suas pesquisas se concentram em política americana, economia política internacional e métodos computacionais aplicados às ciências sociais. Investiga temas como a hegemonia do dólar no sistema financeiro global, a dinâmica de poder no Congresso americano e o papel crescente da inteligência artificial na análise política. Neste espaço, traduz esse universo acadêmico para o grande público — explorando, em português e em inglês, as conexões entre poder, tecnologia e democracia no mundo contemporâneo.

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É o quanto o deputado federal eleito mediano é mais rico que o candidato mediano. A barreira de entrada na política brasileira não está no registro da candidatura. Está entre a candidatura e a cadeira.

Comparamos três camadas do processo eleitoral brasileiro (quem vota, quem se candidata e quem vence) na Câmara e no Senado, em 2018 e 2022. O padrão se repete em todas as dimensões que medimos.

Mulheres são 52,6% do eleitorado e 17,7% das deputadas eleitas. Pretos e pardos são 55,2% da população adulta e 26,3% dos eleitos. 82,7% dos eleitos têm diploma superior, contra 17,2% da população.

Quase toda comparação sobre representação política para na camada de candidaturas. É justamente na passagem seguinte, a de quem vence, que a distância se aprofunda.

Uma ressalva que fica no texto, não em nota de rodapé: a análise é descritiva. Ela mede os estágios do funil, não as causas de cada filtro.

Análise completa no link da bio.

Fontes: TSE (perfil do eleitorado, candidaturas e declarações de bens) e IBGE (PNAD Contínua, Censo 2022).

#política #políticabrasileira #congressonacional #ciênciapolítica #dados #dadosabertos #representatividade #representaçãopolítica #eleições #desigualdade #jornalismodedados #tse #ibge
  • Em 2023 um balconista de farmácia gravou um desabafo no TikTok e chamou a escala 6x1 de "escravidão moderna — moderna não, ultrapassada".

Três anos depois: 3 milhões de assinaturas, um movimento nacional, um mandato de vereador e uma PEC aprovada na Câmara.

Só que quase todo o debate virou conta de horas. 44 ou 40. Custo ou competitividade.

Fui olhar quem, de fato, cumpre essa jornada — e os dados são bem mais específicos que "o trabalhador brasileiro":

📊 Jovens de 18 a 24 anos, negros, periféricos, concentrados no comércio 💰 73% da população negra ganha até R$ 2.120/mês — 80,7% entre mulheres negras 🚌 33% gastam mais de 90 minutos por dia só no deslocamento ⚠️ Negros são 70% nas 10 ocupações que pagam pior e 27% nas 10 que pagam melhor

Frantz Fanon descreveu no mundo colonial uma engrenagem em que raça e economia se explicam mutuamente: "é rico porque é branco, é branco porque é rico". No Brasil pós-abolição a mesma lógica opera invertida, por baixo.

A PEC das 40h está no Senado há mais de dois meses. E já tem contraproposta: flexibilidade individual, cada um negociando seu horário direto com o patrão. Pesquisadores do CESIT/Unicamp chamaram isso de cavalo de Troia da precarização.

O nome do movimento continua sendo o melhor argumento do ciclo inteiro: Vida Além do Trabalho. Não é pedir uma escala mais amena. É dizer que existe vida que não cabe no tempo cedido ao trabalho.

Análise completa com dados e referências no link da bio.

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  • A máscara que o Brasil não quer tirar. Frantz Fanon e as cotas raciais: o debate que revela o racismo disfarçado de mérito. Em 14 anos de cotas, quase 2 milhões de cotistas mostraram que o ponto de partida nunca foi igual. Descubra mais na série Fanon e o Brasil. Texto completo no link na bio.
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