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Quem trabalha na escala 6×1 é jovem, negra e mulher

Em setembro de 2023, um balconista de farmácia do Rio de Janeiro gravou um desabafo no TikTok e chamou a escala 6×1 de “escravidão moderna — moderna não, ultrapassada”. Três anos depois, aquele vídeo virou três milhões de assinaturas, um movimento nacional, um mandato de vereador e uma PEC aprovada na Câmara. Mas quase todo o debate público sobre a jornada tratou de horas e de custos. Quase nenhum tratou de quem, exatamente, cumpre essas horas.

Este texto parte de uma pergunta simples: quem trabalha na escala 6×1 no Brasil? A resposta que os dados dão é bem mais específica — e mais desconfortável — do que “o trabalhador brasileiro”.

O contexto: de um desabafo no TikTok à PEC parada no Senado

A trajetória é rápida de contar. O desabafo de Rick Azevedo — jovem, negro, gay, migrante do interior — gerou uma petição que passou de três milhões de assinaturas e fundou o movimento Vida Além do Trabalho (VAT). Azevedo foi eleito vereador no Rio. A deputada Erika Hilton (PSOL) converteu a demanda em Proposta de Emenda à Constituição.

A proposta original previa 36 horas semanais. O que a Câmara aprovou, em dois turnos, em maio de 2026, foi a redução de 44 para 40 horas, com cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem redução de salário. O texto seguiu para o Senado.

E é ali que está desde então. A PEC não foi direto ao plenário: precisa passar pelas comissões, e acumula mais de dois meses de tramitação sem avanço decisivo, agora com o calendário eleitoral no caminho. Enquanto isso, uma contraproposta do senador Rogério Marinho (PL-RN), a PEC 12/2026, propõe outra coisa: jornada definida por acordo direto entre patrão e empregado, contrato individual prevalecendo sobre a negociação coletiva, remuneração por hora sem número mínimo de horas contratadas.

Os pesquisadores José Dari Krein e Marilane Teixeira, do CESIT/Unicamp, chamaram essa contraproposta de “cavalo de Troia da precarização”. Voltaremos a ela.

O que os dados dizem: o perfil de quem cumpre a jornada

Atlas comentado da escala 6×1 no Brasil organiza o que a discussão sobre horas costuma deixar de fora. A escala se concentra em jovens de 18 a 24 anos, majoritariamente negros e periféricos, empregados sobretudo no comércio — um setor em que mulheres negras são maioria.

Os números de renda desenham o mesmo contorno:

E há um dado que raramente entra na conta da jornada: 33% dos trabalhadores gastam mais de 90 minutos por dia no deslocamento casa-trabalho. Isso não é uma inconveniência logística. É jornada não remunerada. Somando ida e volta a seis dias de trabalho, o “dia de folga” existe menos como descanso e mais como tempo de recomposição para a semana seguinte.

Junte as três coisas — quem, quanto e quão longe — e o sujeito empírico da escala 6×1 aparece com nitidez: jovem, negro, majoritariamente mulher, morando longe de onde trabalha.

Por que isso importa: tempo, corpo e raça não são variáveis separadas

Aqui vale trazer Frantz Fanon, psiquiatra e teórico político martinicano, autor de Pele negra, máscaras brancas e Os condenados da terra. Fanon descreve, no mundo colonial, uma engrenagem em que economia e raça se explicam mutuamente: “é rico porque é branco, é branco porque é rico”.

No Brasil pós-abolição, a mesma lógica opera invertida, pela base: você é pobre porque é negro; você é negro porque é pobre. Não é uma frase de efeito — é o que os números do DIEESE descrevem quando mostram a mesma população concentrada embaixo e ausente em cima, geração após geração.

O que Fanon acrescenta ao debate sobre jornada é o vínculo entre tempo e corpo. Ele observa que o colonizado “aprende a ficar em seu lugar” — a fixação não é feita só por lei, é feita por geografia, por salário, por qual bairro fica a quantos quilômetros de qual emprego. No Brasil contemporâneo, essa fixação não precisa de caserna. Ela se faz com preço de aluguel, malha de transporte e a distribuição racial de quais ocupações estão disponíveis para quem.

A escala 6×1, nesse arranjo, reduz a pessoa às horas em que ela está disponível: um corpo que existe para ser consumido pela empresa e restaurado apenas o suficiente para voltar. Discutir se são 44 ou 40 horas sem discutir isso é discutir metade do problema.

Mas Fanon é igualmente preciso sobre o outro lado: o sujeito fixado é “dominado, mas não domesticado; inferiorizado, mas não convencido”. A energia que a estrutura não consegue esgotar é exatamente a que apareceu num vídeo de TikTok em 2023.

A armadilha: quando “liberdade individual” significa menos proteção

É por isso que a contraproposta merece atenção redobrada.

A PEC 12/2026 não ataca a demanda de frente. Ela redefine seus termos. Em vez de redução coletiva da jornada, oferece flexibilidade individual: você negocia seu horário, você define suas horas, você escolhe. Formalmente, é autonomia. Na prática, é o que a literatura internacional chama de contrato de zero hora — sem número mínimo de horas garantido, com renda imprevisível e o risco da atividade econômica transferido do empregador para o trabalhador.

Fanon tem um nome para esse gesto: pseudorrespeito. É o apelo formal à autonomia e à dignidade de quem é dominado, feito de um jeito que não leva a sério os valores dessa pessoa — só a fixa melhor no lugar onde já estava. No mundo colonial, isso aparecia como preservar a “cultura nativa” enquanto se esvazia sua capacidade de produzir vida. No mercado de trabalho periférico, aparece como “autonomia do trabalhador”: o discurso que reconhece a capacidade individual de chegar a qualquer lugar e nega as condições estruturais de exercê-la.

O detalhe cruel é que a promessa é sistematicamente desmentida pelos próprios dados. Se mérito individual dissolvesse a estrutura, pessoas negras não seriam 70% embaixo e 27% em cima. A mística do trabalho oferece uma saída individual que a estrutura bloqueia de forma estatisticamente regular.

Isso não significa que a demanda por autonomia seja falsa. Significa que ela é ambivalente: pode ser o começo de uma recusa real ou a reprodução da mesma engrenagem com outro nome. O que decide entre as duas coisas é se a proteção é coletiva ou se cada um negocia sozinho com quem tem mais poder que ele.

Conclusão: “vida além do trabalho” não é sobre horas

O nome do movimento é o argumento mais preciso de todo esse ciclo. “Vida Além do Trabalho” não pede uma escala mais amena — afirma que existe vida que não cabe no tempo cedido ao capital, e que o corpo tem valor fora da sua função produtiva.

A pergunta que fica aberta não é se a reforma passa no Senado. É quem controla o sentido da vitória, caso ela venha. Se a aprovação encerra o assunto e o movimento se dissolve, teremos mais um episódio de acomodação. Se a aprovação for o ponto de partida de um sujeito político que continua perguntando, terá sido outra coisa.

Fanon fecha Pele negra, máscaras brancas com uma oração que serve bem aqui: “Ó meu corpo, faça sempre de mim um homem que questiona!”. O corpo que questiona não descansa na vitória obtida. Ele continua interrogando as condições sob as quais a vida é possível.

Para os jovens negros e periféricos que sustentam a escala 6×1, esse conflito é o primeiro momento dessa descoberta. Não é a conclusão dela.

Referências

Este texto é uma versão para o público em geral do artigo “Life Beyond Work: Fanon, Political Agency, and Conflicts Over the 6×1 Schedule in Brazil” (Carlos Eduardo de Souza, UC Riverside, 2026).

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